Mostrando postagens com marcador Filosofia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Filosofia. Mostrar todas as postagens

sábado, 30 de janeiro de 2010

Conhecimento Proibido

Caro leitor, é neste dia ensolarado que o Diálogo Entrópico volta de um prolongado hiato. As razões são muitas, e irrelevantes para serem comentadas, então vamos direto ao assunto. Este é um tema que vai esbarrar na antropologia, mitologia e na ficção.
Um dos motivos da escolha do objeto é a leitura do livro básico do Mundo das Trevas, da editora americana White Wolf,
publicado no Brasil pela Devir Livraria. Este é um livro de RPG (algo sobre o qual vou falar mais dia, menos dia por aqui) sobre pessoas comuns que descobrem um mundo sombrio por trás da normalidade aparente. Pra quem conhece, pense no seriado Supernatural (não consigo escrever Sobrenatural...), com todos os seus monstros escondidos e mistérios sujos encobertos.
A leitura do livro e o tema do jogo me lembraram bastante (e talvez, apesar de não explícito, pode ter sido a intenção, ou parte dela, mas certamente uma das inspirações) o clima dos contos de H.P. Lovecraft, conhecido pelos mitos Cthulhu. Esta série de contos fala sobre os Antigos, deuses monstruosos que vivem escondidos, mas que a humanidade ainda se lembra por meio de antigas culturas e rituais sinistros. O que há de interessante na obra de Lovecraft é que a humanidade não tem chance alguma contra os Antigos. Qualquer um que tente entendê-los ou desafiá-los acaba louco, inútil.
A maior semelhança por mim notada entre as duas obras é o segredo. Segredo porque o conhecimento, nestes lugares, é fundamental e escondido, mas infinitamente perigoso e fatal. A própria mente humana se revolta ao notá-los, e é por isso que muitos preferem ignorar, inconscientemente. É até divertido notar que os autores de ambas as obras se baseiam no medo do escuro e do desconhecido presentes na humanidade (normalmente associados ao nosso passado numa Terra assolada por predadores noturnos, em que a união e o fogo eram os únicos consolos dos primeiros homens) e lhes dão uma nova roupagem: ainda nos lembramos das criaturas terríveis que estão lá fora, e já nos dominaram.
Bem, temos algo aqui. Certo tipo de conhecimento é perigoso e proibido. Isto é algo que ainda vemos, e numa outra esfera ligada à religião: quem não se lembra da história de Adão e Eva? Ao ingerirem a fruta do conhecimento, discerniram o bem do mal e foram expulsos do Paraíso. Antes que se comece a polemizar demais, vamos analisar a história de acordo com seu simbolismo. Mais uma vez digo, é uma análise amadora, caro leitor.
O simbolismo dessa história pode ser percebido em alguns níveis. Primeiro que, em eras mais primitivas o conhecimento era algo incrivelmente importante e as religiões, que controlavam abertamente o mundo, não desejariam que as pessoas conhecessem muito, o que talvez levaria a descrença e revolução. Hoje em dia o conhecimento ainda é visto como libertador, uma herança de várias revoltas e especialmente do Iluminismo, mas a noção de que ele pode destruir uma crença é um tanto quanto polêmica. Meus comentários, então, nesse sentido, se voltarão a épocas mais estereotipadas (precisamos ter algum ponto do qual falar, não é verdade? Ou então eu preencheria o texto com ressalvas e desculpas). Em resumo, a erudição era encarada como algo perigoso e que deveria ser mantido longe das massas.
Outro nível, mais ligado à antropologia, é a percepção humana da perda da inocência. Assim como as crianças crescem e, ao se tornar adultos, geralmente lamentam o que perderam, a raça como um todo pode ter uma certa aflição por se afastar do mundo natural, da “abençoada ignorância” dos animais, por exemplo. É uma metáfora, falando sobre a dor e o terror de estar numa terra árida e inóspita (fora do Éden, onde “o solo será maldito por tua causa”). A dor é ainda maior porque ainda sobra uma árvore no Jardim, a da Vida Eterna. Sem ela, “ao pó voltarás”.

Um terceiro e mais abstrato nível pode se referir à solidão do conhecimento. Aquele que muito sabe pode acabar se afastando dos outros, para descobrir mais ou continuar sua jornada. Ou então que aquele que conhece tem uma certa responsabilidade para aqueles que não tem o conhecimento. De qualquer maneira, são poucos os que sabem, o que os isola. O arquétipo do cientista e pesquisador é solitário, não é verdade?
De qualquer maneira, o conhecimento proibido é algo que sempre esteve em jogo para a raça humana. Proibido por entidades divinas, proibido por ser doloroso, proibido por ser excludente. É a luz da razão, mas também é a fogueira dos descrentes. Apesar de tudo, a própria Bíblia diz, em Gênesis 3, 22: “O Senhor Deus disse: 'Eis que o homem tornou-se como um de nós, pelo conhecimento do bem e do mal(...)'”. Pelo menos, a humanidade se posiciona ao lado do infinito por conhecer. Pode ser doloroso, mas as mariposas também são atraídas pelo fogo.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Mais perto do que o esperado

Após uma incursão na filosofia, o DE volta a se concentrar na tecnologia invadindo o cotidiano. Apesar de ser um tema discutido desde que a roda foi inventada, provavelmente, não deixa de ser algo importante a se falar, afinal se trata da raça humana, como um todo. E, a saber, os maiores temas são os que se aplicam a todos nós, na opinião do autor.
As bases já são conhecidas: o mundo se estabelece com uma tecnologia, cultura, meios de produção e tudo o mais. Continua assim por um tempo determinado (que, recentemente, parece ter diminuído e continua a diminuir), até que há uma confluência que gera um enorme salto - revolução, é como chamamos. E elas podem ser de diversos tipos (religiosas, científicas, políticas...), mas não há dúvida que todas se relacionam à tecnologia.
Antes que o leitor se enfureça, é bom destacar qual o sentido de "tecnologia" que o autor quer salientar. A palavra deriva de técnica, que é a habilidade em uma arte ou conhecimento. Pode-se então dizer que um pintor, um mecânico e um médico são técnicos, cada um em sua própria área. E por que não um professor, um soldado, um padre...? Assim, podemos ter uma imagem de que toda revolução é uma revolução técnica, por mais genérico que seja ou pareça o uso do termo.
Disposições definidas, podemos voltar ao cerne da questão. Muitas obras famosas fazem referência a diversas revoluções: quadros, livros, filmes... uma lista seria não só colossal quanto inútil no momento. Para não deixar de ilustrar, cito A Leste do Éden, de John Steinbeck, que mostra a chegada do automóvel, além da 1ª Guerra Mundial e diversas inovações de maquinaria e costumes na América da virada do século XIX para o XX. O que importa, na verdade, é salientar que o conceito da mudança sempre esteve em debate, em todas as épocas.
Mas o motivo estrito do tema, neste momento, vem de uma conversa presenciada pelo autor entre alguns caminhoneiros. Discutiam eles sobre os modernos caminhões, e o intenso uso de GPS, tacógrafo, sistemas analisadores de gasto de combustível e reparo, além de outras quinquilharias. As opiniões dividiam-se entre as vantagens, como o risco ao caminhoneiro bastante reduzido devido aos equipamentos de vigilância e segurança, e as desvantagens causadas pelo controle acirrado. Falavam, sem saber, da obra máxima de George Orwell, 1984.
O caso específico pode até parecer banal, mas prova algo que está tão na ponta dos nossos narizes que por vezes esquecemos de notar: o avanço tecnológico está presente. E, às vezes, mas perto do que gostaríamos.
Sobre o bom uso (ou uso consciente, como queiram) dessa tecnologia, é bom lembrar que a velha ética pode ser uma base, mas não integralmente usada em conjunto com os novos meios. Para aqueles que estranharem esta posição ("a ética é universal, oras!") é bom que se recordem da moral aristotélica, base do atual mundo ocidental, em sua integridade: temas como escravidão e machismo são lá descritos e defendidos com argumentos sólidos. Volta, então, o que já foi dito várias vezes: cada época, sua filosofia - sua técnica.

sábado, 9 de janeiro de 2010

A Aventura do Filósofo

Alguns chamam de vaidade. Outros, de orgulho. Há os que ainda chamam de modéstia – maculada pelo adjetivo “exacerbada”. Não que importe, ou faça diferença.
Minto. Faz. Toda a diferença do mundo pode estar nos epítetos que cunham a filosofia. “Amor à sabedoria”, muitos sabem, mas poucos parecem se lembrar ou compreender.
Qual é, afinal, o objetivo da filosofia? Alguns se retirariam para uma longa meditação para responder a essa pergunta; outros se reuniriam numa confabulação de estudiosos, e mais outros se sairiam com alguma frase de simples sabedoria ou ácida ironia. Não que não se possa examinar alguns aspectos da (matéria? ciência? disciplina?). Que sejam vistos.
A começar, pode-se tentar defini-la pelo objetivo: sabedoria, já que Sócrates, o mais eminente da turma filosófica, disse que o primeiro passo para a sabedoria era reconhecer que nada se sabia. Seus conterrâneos compunham o povo que escreveu “Conhece-te a ti mesmo” em Delfos e foi posteriormente dominado, humilhado e glorificado pelo Império Romano.
Muito depois dessa época, onde a filosofia era a ciência por excelência, quando ela tratava de átomos, matemática, política e a elegante mistura da vida, do universo e tudo o mais, ela passou a se dedicar mais a certos campos, conforme a data. Na Idade Média, a religião era um dos principais focos, refletindo em seu espelho a escuridão reinante em volta. O Renascimento deu (devolveu?) ao homem o seu devido lugar. O Barroco tornou a colocar Deus no alto, e os homens a tentar responder a Seus desígnios.
O mundo avança. O pensamento filosófico abarca novos continentes, máquinas avançadas, ciência de ponta. Logo passa por jovens rebeldes e suas poesias, por homens rebeldes e suas guerras. E em menos tempo ainda a contagem de corpos cresce.
O homem passa a se preocupar com o (super-)homem. A moralidade, ou pelo menos o seu estado, reaparece ao lado do sombrio e fantasmagórico inconsciente. Muita gente, muito dinheiro, mídia: todos se incluem no campo. E a ciência avança.
Avança tanto que, em pouco tempo, a filosofia precisa acompanhá-la de perto: a física dos quanta nos devolve o livre-arbítrio retirado (há controvérsias) por Laplace? A contínua absorção exponencial de informação quantificada, qualificada e organizada altera nossa convivência e, se sim, como? O poder acumulado e o conhecimento podem evitar a nossa destruição como espécie,ou apenas acelerá-la?
Ser filósofo nunca foi fácil. Parece que não é agora que isso vai mudar.


Este texto é uma pequena homenagem a todas estas pessoas que mudaram o modo de se ver o mundo, e um convite a quem mais desejar seguir seus passos.

domingo, 29 de novembro de 2009

Aproveite a Festa


Ele chega, e é saudado por todos à porta. Rostos felizes, abraços e beijos o rodeiam, enquanto ele entra no salão. Pessoas cultas, pessoas incultas, todos parecem se ocupar com ele, oferecendo bebidas e os petiscos, e as mais recentes notícias o orbitam. Ele entra naquele rendez-vous de felicidade, e não percebe, de imediato, que esmoreceu com a entrada de um novo convidado. Nem tanto, aliás; as atenções se dividiram apenas um pouco.
A noite começa a ficar alta e agitada. Depois do frenesi inicial, ele está com um pequeno grupo, desenvolvendo algumas conversas. Como toda a festa, aliás: grupos, os animados anfitriões passando entre eles e tentando integrá-los, e as primeiras discussões sérias, motivadas por problemas de fora da festa com o combustível alcoólico abundante.
Enquanto as coisas vão se aquecendo na celebração da felicidade que é esta festa, ele se afasta para um canto com uma garota. Lógico que ela é bonita, e tem uma conversa interessante, mas após alguns minutos de contato, eles se dispersam. Em toda a festa é a mesma coisa: em poucos minutos ela já se agarra a outro, e ele observa o vestido de algumas. Seu grupo? Entretido nas mesmas coisas.
A música vem, solta. Ele conversa com um rapaz ao seu lado, para elogiar a música da circunstância ou criticá-la acidamente, se não gosta. O rapaz concorda e, juntos, vão se divertindo, até tocar uma canção que os divide. “Essa é ótima!”, “Como assim? Que música indecente!”, “Como é?”. Nessa discussão, ao ritmo do som, powered by some drinks, os dois passam de palavras para atos: um punho joga um deles (qual? Parecem irmãos, já, devido à alta confusão) na mesa, espalhando os salgados e sujando a camisa clara do sujeito. Os anfitriões e amigos correm, separam os dois e arranjam uma camisa nova para o acidentado. Ele, após insistência, concorda em continuar na festa, mas os dois se entreolham de lados opostos do salão, com fúria, e atentamente vigiados por aqueles que não se importam com a música a tocar, apenas balançando suas cabeças ao ritmo, qualquer que seja.
Alguns convidados começam a ir embora. Alguns em pares, mas a maioria sozinha: as relações estabelecidas foram breves demais. Para aqueles cujo par foi embora, restam apenas as lágrimas, a busca de outro ou o telefone, para pedir um táxi.
Felizmente, a maioria dos que se foi levou junto os pouco resistentes a bebida e os volúveis (que foram apenas procurar outra festa para ir), e os que restam podem conversar melhor. Começa aí, para a maioria deles, a verdadeira festa. Um deles é biólogo, e fala sobre a vida; imediatamente, é interpelado por outro, que é economista. Paralelamente, um matemático argumenta com uma escritora sobre o sistema de transporte público. Os anfitriões participam das conversas tanto quanto possível, alguns dormindo, outros imersos, outros ainda mudando de assunto deliberadamente: nada disso na minha festa.
Ele, que havia entrado na festa meio que por acaso, convidado por nem se lembra quem, encontra algumas boas conversas, que já o fizeram esquecer da primeira garota e da terceira, a mais intensa da noite. Em meio a isso, ele olha seu moderno e caro relógio. Sob o indicador de data e profundidade (ele adora acessórios de exploração, mesmo só podendo sair durante as férias) ele percebe que passa de sua hora. Levanta-se, desajeitado, e se despede das pessoas. Nem todos os presentes ouvem, tão completamente estão em seus próprios assuntos.
Entretanto, um senhor, que é um dos anfitriões, escuta e vai com ele até a porta. Enquanto esperam o táxi, o senhor pergunta se ele gostou da festa. Apesar de eventuais problemas, “eu adorei!”, diz ele. O senhor, de um modo cansado, diz: “eu deveria ter-lhe dito para aproveitar a festa desde o início. Você poderia ter obtido mais coisas dela.” Ao ouvir isso, ele para, estarrecido, mas seu táxi chega e ele se vai, acenando para o senhor. Pela janela, a noite está bem escura, e chove. Pelo menos as lâmpadas de mercúrio brilham, oferecendo alguma luz.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Sobre redes e uma conferência


Hoje, acabou a feira Inova Provoc no Coltec. Finalmente, apresentei meu trabalho sobre Auditoria (talvez um dia eu o comente aqui). Mas o que venho tratar tem mais a ver com uma extrapolação de temas que ocorreu por lá.
No primeiro dia (ontem, 22/10) a feira estava bem vazia, tanto que apresentávamos uns para os outros, essencialmente. Cheguei a ficar isolado por uma hora no meu estande, que ficava bem no fundo da área. Mas hoje tudo foi diferente: além do número de visitantes ter aumentado barbaramente, vários amigos meus foram assistir, o que promoveu a reunião constante de pelo menos duas pessoas no meu estande, com as mais diferentes conversas: Império Romano, grandes homens da humanidade, vantagens do iPod Touch, inutilidade da telefonia na atualidade, neurologia e matemática...
Refletindo um pouco sobre o que ocorreu, percebi algo: como sempre haviam pessoas discutindo no estande, quem passava pelos corredores tinha sua atenção atraída, pelo menos momentaneamente. Nesse momento, eu "fisgava" as pessoas para a apresentação. Surpreendentemente, a maioria pareceu gostar. Bom!
Mais tarde, um daqueles raros insights veio: me lembrei do PageRank.
Como? O leitor não sabe do que se trata? Mas se o utiliza diariamente!
O PageRank é o algoritmo que Nosso Senhor Google utiliza para classificar as páginas em suas buscas na internet. Ele compara a relevância das páginas baseado na quantidade de links para esta página. Então, no meu caso, as pessoas no meu estande funcionaram como esses links, e até mesmo um amigo da organização, que trouxe vários grupos para a apresentação. E, também, quando uma garota que conheci no evento veio assistir à minha apresentação, levei o rapaz com quem conversava para assistir à apresentação dela. Veem? Feedback! Compartilhamento de links! Porque é assim que a internet (e, de modo geral, o modelo que temos de redes) funciona: quanto mais links, mais simples achar informação.
É claro que esta teoria tem pontos falhos: nem sempre os melhores trabalhos possuem mais links, o que gera bastante conteúdo inútil. Mas, se pensarmos mais a fundo, qual é o melhor trabalho? Não seria o mais interessante? Se ele possui vários links, isto mostra sua relevância.
E, de qualquer maneira, o conteúdo chama a atenção: um dos melhores trabalhos, com um robô que media uma sala via sonar e se movimentava por ela, se destacava pela natureza interativa da mostra. Por isso, este estande estava sempre cheio.
O que concluir daí? Pouca coisa, talvez muita, mas basicamente que as redes não são um conceito abstrato, e possuem comparadores acessíveis no mundo físico cotidiano.

G.H.

(P.S: como diria meu amigo J. Vinaud, "seremos grandes técnicos em analogias")

sábado, 28 de fevereiro de 2009

O Efeito Borboleta e as Manchas de Rorschach

Olá, caro leitor. Você, neste momento, pode estar se perguntando sobre o motivo desta pausa de uma semana no Diálogo Entrópico. Bem, a causa é simples: como citei no último artigo, voltei a estudar, e os eventos escolares puseram-me fora de combate agora, como o farão mais tarde, sem dúvida. Agora mesmo deixo de estudar Sistemas Lógicos, a fabulosa Linguagem C e tipos de conectores em informática para tratar de mais um assunto interessante. Sem mais delongas, prossigamos.
Provavelmente você já viu, em algum filme, livro ou quadrinho o teste das manchas de Rorschach. Sim, é aquele famigerado teste aonde o psiquiatra mostra ao paciente um cartão com uma mancha simétrica, e questiona-o sobre o conteúdo da imagem (este tema, inclusive, me vem a mente em função da estréia próxima do filme Watchmen, baseado na graphic novel homônima, do inglês Alan Moore, aonde um personagem tem como símbolo manchas desse teste. É uma ótima sugestão de leitura e de cinema; irei comentar mais na semana que vem). Ele foi criado pelo psiquiatra suíço Hermann Rorschach, e sua função, é obter um quadro amplo da dinâmica psicológica do indivíduo. O motivo é facilmente compreensível: as manchas são aleatórias, então o que o paciente interpretar será, na verdade, uma projeção da sua mente. Inclusive, o teste é classificado como "pareidolálico", palavra que vem de pareidolia, como nos casos de observação de nuvens: você vê o que quer.
A psicologia, meus caros, está muito além da lógica, nós já ouvimos afirmar. É como foi dito à exaustão sobre as máquinas: elas não podem amar, sentir, etc. O porque? As máquinas (como o aspirante a profissional de informática aqui vem aprendendo) trabalham com lógica Booleana: 1 ou 0, sim ou não, certo ou errado. Já a psique humana trabalha com "melhor ou pior", "talvez seja", e "limão ou maracujá?". Deste modo, podemos dizer que lógica pura não se aplica a nós, então algo como o teste de Rorschach lida com variáveis não-quantificáveis e envolve um bocado de especulação.
Mas espere: nos sabemos que os neurônios, os fantásticos computadores cerebrais, operam eletroquimicamente. A química e a física operam segundo leis definidas, então decifrar o pensamento se resumiria a quantificar o funcionamento dos neurônios. Mas porque isso ainda não foi feito?
Uma pista, pelo menos para mim, vem do chamado "Efeito Borboleta".
Teorizado pelo meteorologista e matemático Edward Lorenz, este efeito é uma das bases da Teoria do Caos. Em resumo, ele diz que, em um sistema grande e complexo (por exemplo, a atmosfera terrestre) um pequeno fator desencadeia coisas imprevisíveis, de tal modo que dizemos ser ao acaso. O modo pelo qual Lorenz chegou a ele é interessante. Num programa simples de computador, ele simulou condições climáticas. Ao refazer a simulação, ele, por engano, alterou levemente um dado qualquer, e o resultado final da simulação foi inteiramente diverso da primeira. Então, ele chegou à famosa pergunta: "Pode o bater das asas de uma borboleta criar um furacão em outro lugar do mundo?". E disto foi criada a Teoria do Caos, que tenta explicar fenômenos aparentemente caóticos e imprevisíveis, aliás impossíveis de solucionar de forma prática (ruído, pensamento, sistemas turbulentos...). Isto não cheira aos fenômenos quânticos?
Então, isto me leva a especular: o pensamento não é aleatório; ele apenas envolve variáveis suficientes para impedir a sua compreensão pelo mais potente computador atual. Então, as Manchas de Rorschach, se realmente funcionam (coisa que realmente não sei) tem alguma validade neuro-matemática (palavra que, creio eu, não exista).
Podemos extrair alguma conclusão útil? Creio que sim. Nós somos seres lógicos, mas de uma complexidade, quem sabe, quântica. O universo pode funcionar de forma lógica, porém infinitamente complicada.
E, para finalizar, me vem à mente uma frase do norueguês Jostein Gaarder: "Se nosso cérebro fosse tão simples a ponto de podermos entender o seu funcionamento, seríamos tão idiotas que não conseguiríamos compreendê-lo".



sábado, 24 de janeiro de 2009

Primeiro, um aviso

Criei um Blog.
Redundante, né? Se você está lendo, significa que... ah, tá. Deixemos isso para o Sheldon (The Big Bang Theory; (ótimo seriado americano).
Começando de novo: depois de muito tempo desperdiçando textos em folhas velhas de caderno, gastando um dinheiro imenso e produzindo um incessante cessar de árvores (além de empregos na indústria de papel, o que era o caso do meu pai a algum tempo atrás), após tudo isso eu resolvi colocar meus textos num lugar aonde, por imensa exposição, eu serei inteiramente ignorado: a internet.
Poderia criar (ou copiar, não interessa, Tarantino que o diga) um texto imenso sobre a internet, como ela abriu espaço para a escrita, a socialização, a banalidade. Mas isso também é redundante, e aos teóricos da internet fica esta tarefa.
Teóricos. Engraçado, eu adoro os teóricos. Os da internet, por exemplo, devem ser aclamados. No meio deste fenômeno imenso, eles tentam ver o que está acontecendo. Quem está no meio da tempestade tem mais dificuldade de ver o céu acima das nuvens (tudo bem, sem mais poesia de segundo calão).
Outros teóricos que eu admiro são os físicos. Eu, criança ainda, nos meus 13 anos de idade, comprei um livro sobre Albert Einstein. Pronto. Passei a admirar a Física como nada mais. Divertida, séria, útil. Quem diria que os físicos, em suas cadeiras e contas, iriam inventar o mundo moderno? Desculpe-me Freud, você vê o que os homens sentem, eles criam mais algumas coisas pra você se preocupar. É a vida.
Física. Daí surge o título do blog, numa manhã de sábado. Diálogo: conversar é bom. Entropia: não garanto a certeza, não farei citações (por ora), mas é a medida de desorganização de um sistema. Não que eu seja desordeiro, mas os diálogos aqui serão bastante entrópicos, com temas variados e conclusões que os farão pensar que o autor está um tanto quanto ébrio.
Uma última palavra sobre entropia: esta palavra veio ao meu disco rígido de massa cinzenta de forma diferente quando um amigo me disse, após um encontro de astronomia: a entropia do universo está aumentando, mas o ser humano vai contra isso.
Estamos nadando contra a corrente. De algum modo, isso me felicita.