E é com quase um ano de existência que o DE volta. Apesar de toda a confusão de fim/começo de ano, a firma não pode parar.
Falando em parar, no primeiro dia do último ano da década de 2000, a Coreia do Norte surpreendeu o mundo dizendo que gostaria de "por fim às relações conflituosas com os Estados Unidos". Para quem não se lembra, a questão girava em torno do programa nuclear Norte-Coreano, que infrigia várias regras da segurança nuclear mundial e certamente outras do bom-senso. A despeito do que se possa chamar de "propaganda favorável aos USA", certamente era uma situação tensa, principalmente num mundo que já foi refém da Chantagem Atômica (hello, Mr. Bond). Num contexto mais amplo, essa notícia pode fazer referência à crítica russa do escudo antimísseis americanos e todo o problema com o Irã.
Mas por que cargas d'agua estamos falando sobre isso? O que há, leitor, é que a discussão de hoje está embasada no tema da guerra. Não, não vamos falar sobre toda a sua história: apesar de ser um assunto interessantíssimo, teremos outras oportunidades para discuti-lo. O assunto de hoje é Modern Warfare.
Antes que me julguem, o título vem um pouco do jogo da Infinity Ward, mas não todo. É fato que o obcecado escritor que vos fala é fã de carteirinha do título de ação, mas apenas irá usá-lo como ponta de lança para o artigo. Tomem assento, então, no Hummer blindado de vossa conveniência e apreciem a vista. Por favor, usem capacetes.
O que se vê de fora depende do humor da mídia: heroicos soldados lutando contra um mal absoluto (os rapazes da F.E.B. na Itália, por exemplo), ou assassinos desumanos contra um povo resistente (Vietnã, alguém?). O fato é que as guerras modernas quase sempre começam por motivos misteriosos e possuem desenrolares nem sempre bem explicados. Pode-se explicar bem as invasões escandinavas na bretanha: expedições por terra e escravos. Agora, como delinear um plano livre de preconceitos sobre a assim chamada "Guerra ao Terror", ou mesmo definir o que é um terrorista?*
O exemplo acima dado pode ser criticado por seu anacronismo em excesso. Acredito, porém, que a chave para uma melhor compreensão da guerra modernaestá justamente no avanço. Apesar de ser chavão dizer que o avanço tecnológico mudou radicalmente o mundo, é um fato. Primeiro as armas: possuir um rifle automático com grande poder de fogo e barato (cito o famoso exemplo do AK-47) estimula conflitos civis e de milícia mais facilmente do que os mosquetões ou mesmo espingardas de caça de muito tempo atrás. Também altera o campo de batalha saber que pode-se ser atingido a mais de um quilômetro por um franco-atirador, enquanto uma espada lhe dava a segurança do uso do escudo e contragolpe.
As comunicações foram outro (talvez o maior) fator de complicação. Se antes um espião precisava se deslocar a uma complexa estação de rádio para passar informações, ou mesmo viajar por um longo caminho, um simples telefone celular ou e-mail garante que a informação chegue em poucos minutos. Um míssil via UAV Predator pode atingir virtualmente qualquer lugar, e uma invasão aérea demora não mais que horas para atingir qualquer lugar no mundo (aconselho fortemente o Modern Warfare 2 para um exemplo magnífco disso).
Agora já temos um retrato da guerra atual: armas muito avançadas e motivos dúbios. Resta, porém, indagar sobre os objetivos. Engana-se o leitor ao pensar que os motivos e os objetivos são a mesma coisa: qualquer jogador experiente de War (categoria da qual, infelizmente, não faço parte) pode dizer que já precisou atacar lugares diferentes para disfarçar seu objetivo. Ao falar de objetivo, quero dizer duas coisas: objetivos militares e objetivos gerais; note que não são conceitos estabelecidos, mas sim criados para o fim desta discussão específica.
Os objetivos militares seriam os alvos. São mais estratégicos: se é descoberto um vital depósito inimigo de munição, é um alvo. Um quartel ou central de comunicações também é um alvo. No caso dos "terroristas", um grupo de civis "inimigos"é um alvo. E ao continuar avançando, pode-se encontrar outras aberrações como alvos: hospitais já foram atacados na problemáatica Faixa de Gaza.
Os objetivos gerais são o "como ganhar a guerra". Seriam como tomar Berlim na Segunda Guerra Mundial, ou as Falklands na Guerra das Malvinas. Repare que não envolve "matar todos os inimigos": eles são simplismente casualidades necessárias.
O que ocorre, apesar disso, é que a visão atual da guerra envolve a morte de todos os inimigos. Pergunte a qualquer um como acabar com o terrorismo. Grande parte das respostas será "mate todos os terroristas". O terrorista, para a mente ocidental bem educada (adestrada?) não é um ser humano, e sim uma criatura ímpia sedenta de sangue. A própria vida, aliás, perde o seu sentido: não nos toca saber que dezenas morrem em atentados terroristas no oriente médio ou em tiroteios nas favelas, enquanto um ou outro famoso ou parente parece destruir o ânimo. Não é a intenção do autor discutir sobre qual é "mais importante" ou "menos importante", mas é algo que certamente deve ser analizado.
O próximo passo é quase natural, nesse sentido: o inimigo não é um ser humano. Ele mata e destroi. Como detê-lo? Ora, matando-o antes que ele cause outras mortes! Ou, melhor ainda: matando-o antes que ele cause qualquer morte. E viva a guerra preventiva!
Assim, o bem-treinado grupo Rainbow 6 provoca apenas aplausos ao matar dezenas de terroristas de modo eficaz na série Tom Clancy's Rainbow 6. Rambo é um heroi. Os "malditos chucrutes" são execrados nos filmes de guerra. O pior de tudo? São boas obras. Divertidas e interessantes: Rainbow 6 é um jogo excelente, tático. Rambo possui um subtexto interessantíssimo, e a Segunda Guerra tem uma atração romântica fortíssima até hoje. A guerra já está em nossa medula, se não como espécie (e há os que irão dizer que sim), mas culturalmente.
A guerra então, caro leitor, não está "lá longe", inócua. Já nos preocupamos e vivemos com ela, direta ou indiretamente. O valor do ser humano nisso tudo, bem, é o que ainda não está completamente definido.
Falando em parar, no primeiro dia do último ano da década de 2000, a Coreia do Norte surpreendeu o mundo dizendo que gostaria de "por fim às relações conflituosas com os Estados Unidos". Para quem não se lembra, a questão girava em torno do programa nuclear Norte-Coreano, que infrigia várias regras da segurança nuclear mundial e certamente outras do bom-senso. A despeito do que se possa chamar de "propaganda favorável aos USA", certamente era uma situação tensa, principalmente num mundo que já foi refém da Chantagem Atômica (hello, Mr. Bond). Num contexto mais amplo, essa notícia pode fazer referência à crítica russa do escudo antimísseis americanos e todo o problema com o Irã.

Mas por que cargas d'agua estamos falando sobre isso? O que há, leitor, é que a discussão de hoje está embasada no tema da guerra. Não, não vamos falar sobre toda a sua história: apesar de ser um assunto interessantíssimo, teremos outras oportunidades para discuti-lo. O assunto de hoje é Modern Warfare.
Antes que me julguem, o título vem um pouco do jogo da Infinity Ward, mas não todo. É fato que o obcecado escritor que vos fala é fã de carteirinha do título de ação, mas apenas irá usá-lo como ponta de lança para o artigo. Tomem assento, então, no Hummer blindado de vossa conveniência e apreciem a vista. Por favor, usem capacetes.
O que se vê de fora depende do humor da mídia: heroicos soldados lutando contra um mal absoluto (os rapazes da F.E.B. na Itália, por exemplo), ou assassinos desumanos contra um povo resistente (Vietnã, alguém?). O fato é que as guerras modernas quase sempre começam por motivos misteriosos e possuem desenrolares nem sempre bem explicados. Pode-se explicar bem as invasões escandinavas na bretanha: expedições por terra e escravos. Agora, como delinear um plano livre de preconceitos sobre a assim chamada "Guerra ao Terror", ou mesmo definir o que é um terrorista?*
O exemplo acima dado pode ser criticado por seu anacronismo em excesso. Acredito, porém, que a chave para uma melhor compreensão da guerra modernaestá justamente no avanço. Apesar de ser chavão dizer que o avanço tecnológico mudou radicalmente o mundo, é um fato. Primeiro as armas: possuir um rifle automático com grande poder de fogo e barato (cito o famoso exemplo do AK-47) estimula conflitos civis e de milícia mais facilmente do que os mosquetões ou mesmo espingardas de caça de muito tempo atrás. Também altera o campo de batalha saber que pode-se ser atingido a mais de um quilômetro por um franco-atirador, enquanto uma espada lhe dava a segurança do uso do escudo e contragolpe.

As comunicações foram outro (talvez o maior) fator de complicação. Se antes um espião precisava se deslocar a uma complexa estação de rádio para passar informações, ou mesmo viajar por um longo caminho, um simples telefone celular ou e-mail garante que a informação chegue em poucos minutos. Um míssil via UAV Predator pode atingir virtualmente qualquer lugar, e uma invasão aérea demora não mais que horas para atingir qualquer lugar no mundo (aconselho fortemente o Modern Warfare 2 para um exemplo magnífco disso).
Agora já temos um retrato da guerra atual: armas muito avançadas e motivos dúbios. Resta, porém, indagar sobre os objetivos. Engana-se o leitor ao pensar que os motivos e os objetivos são a mesma coisa: qualquer jogador experiente de War (categoria da qual, infelizmente, não faço parte) pode dizer que já precisou atacar lugares diferentes para disfarçar seu objetivo. Ao falar de objetivo, quero dizer duas coisas: objetivos militares e objetivos gerais; note que não são conceitos estabelecidos, mas sim criados para o fim desta discussão específica.
Os objetivos militares seriam os alvos. São mais estratégicos: se é descoberto um vital depósito inimigo de munição, é um alvo. Um quartel ou central de comunicações também é um alvo. No caso dos "terroristas", um grupo de civis "inimigos"é um alvo. E ao continuar avançando, pode-se encontrar outras aberrações como alvos: hospitais já foram atacados na problemáatica Faixa de Gaza.
Os objetivos gerais são o "como ganhar a guerra". Seriam como tomar Berlim na Segunda Guerra Mundial, ou as Falklands na Guerra das Malvinas. Repare que não envolve "matar todos os inimigos": eles são simplismente casualidades necessárias.
O que ocorre, apesar disso, é que a visão atual da guerra envolve a morte de todos os inimigos. Pergunte a qualquer um como acabar com o terrorismo. Grande parte das respostas será "mate todos os terroristas". O terrorista, para a mente ocidental bem educada (adestrada?) não é um ser humano, e sim uma criatura ímpia sedenta de sangue. A própria vida, aliás, perde o seu sentido: não nos toca saber que dezenas morrem em atentados terroristas no oriente médio ou em tiroteios nas favelas, enquanto um ou outro famoso ou parente parece destruir o ânimo. Não é a intenção do autor discutir sobre qual é "mais importante" ou "menos importante", mas é algo que certamente deve ser analizado.
O próximo passo é quase natural, nesse sentido: o inimigo não é um ser humano. Ele mata e destroi. Como detê-lo? Ora, matando-o antes que ele cause outras mortes! Ou, melhor ainda: matando-o antes que ele cause qualquer morte. E viva a guerra preventiva!

Assim, o bem-treinado grupo Rainbow 6 provoca apenas aplausos ao matar dezenas de terroristas de modo eficaz na série Tom Clancy's Rainbow 6. Rambo é um heroi. Os "malditos chucrutes" são execrados nos filmes de guerra. O pior de tudo? São boas obras. Divertidas e interessantes: Rainbow 6 é um jogo excelente, tático. Rambo possui um subtexto interessantíssimo, e a Segunda Guerra tem uma atração romântica fortíssima até hoje. A guerra já está em nossa medula, se não como espécie (e há os que irão dizer que sim), mas culturalmente.
A guerra então, caro leitor, não está "lá longe", inócua. Já nos preocupamos e vivemos com ela, direta ou indiretamente. O valor do ser humano nisso tudo, bem, é o que ainda não está completamente definido.
*Para este ponto eu chamo a atenção para o livro Terrorism and Hostage-Taking on the Middle East, do Dr. Walid Amin Ruwayha, que mostra um ponto de vista diferente sobre o terrorismo, fornecendo um panorama mais amplo ao leitor.


Nenhum comentário:
Postar um comentário