quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

O melhor livro que eu já li


Após uma breve incursão no conto, o Diálogo Entrópico volta a sua programação normal. Ou nem tanto; o texto de hoje é como uma crítica literária disfarçada, mesclada com um pouco de interpretação, ou mesmo trechos autobiográfi cos. Sem mais delongas, vamos à coisa.
(Apenas aviso que o texto e inteiramente parcial. Se não concordar, se sentir ofendido(a) ou similiares, comente ao invés de sair a caça do pobre autor com um rifle. Pode continuar agora.)
Algo que perturbou vosso habitualmente já perturbado cronista nos últimos tempos foi a pergunta "Qual é seu livro favorito?". Tudo bem que a resposta a esse tipo de pergunta é inteiramente subjetiva, razão pela qual não a discutiremos muito a fundo aqui; basta ser dito que depende do estado emocional, de circunstâncias marcantes, etc. Mesmo assim, ela persiste. A final, qual é o livro que, de todas as formas, mais lhe marcou, mais lhe deixou com o sentimento de jamais esquecer?
Primeiro, vosso interlocutor pensou em outras expressões da arte e suas obras máximas, segundo seu entendimento. Na música, Bohemian Rhapsody, do Queen, reina absoluta, indiscutivelmente, amparada por uma votação de ser a melhor música pop de todos os tempos, e um trabalho de quarenta páginas dedicados a esta ópera roqueira (talvez um dia eu o poste...). Quanto à sétima arte, O Poderoso Chefão, de Francis Ford Coppola, está no topo, desbancando
o antigo favorito, Star Wars Episódio V: O Império Contra-Ataca (George Lucas). E já que as estamos numerando, a nona arte (quadrinhos, conhecidos pelos nossos primos portugueses como "banda desenhada") encontra, para mim, seu ápice em Watchmen, de Alan Moore.
Mas... e a literatura? Justo o rato de biblioteca que vos escreve não saberia dizer seu livro favorito? Parece paradoxal, mas não é: apesar de ter lido muitos livros e possuir alguma base para julgá-los, há complicadores, que são a quantidade deles e a comparação, de como escolher um em detrimento dos outros. Uma tarefa nada trivial.
A primeira coisa a pensar foi a influência. O quanto cada livro que li influiu no meu pensamento? A Fundação e a Terra, de Isaac Asimov, contribuiu com a noção de explicação matemática da história; 1984, de George Orwell, com uma visão crua da realidade. A Metamorfose, de Franz Kafka, apresentou-me à loucura do mundo moderno, e O Senhor dos Aneis, de J.R.R. Tolkien, a um mundo novo, estranho, excitante e fantástico.
Mas não era isso, ainda. Se fosse contar pelas influências, a lista seria imensa e dependente do momento exato. Retrogredi, então, aos primeiros dias de leitura, da minha "iniciação": O Rei Arthur e os Cavaleiros da Távola Redonda, numa versão de Ruth Rocha para o clássico de Thomas Malory. A história sobre este livro é curiosa e remonta aos meus 6 anos de idade, mas irei me abster de narrá-la agora. O importante é saber qual foi a porta de entrada para o mundo da leitura. Me guiaria ela, então, à definição do melhor livro? A cavalaria e o fantástico? Ainda não. Apesar de um grande fã desse tipo de obra, nenhum dos que já li pode ser colocado no posto mais alto da minha hierarquia bibliográfica.
Mas o retorno às origens foi proveitoso, por lembrar-me o que mais gosto nos livros: uma boa história. Apesar de livros com teses, filosofia, ciência e outros mais serem do meu interesse, o que mais gosto nos códices de papel (que beire a pieguice, dane-se) é todo o potencial existente na história que se inicia e desenvolve, na imaginação envolvida, na miríade de significados que pode ser construída, assim como grafos se conectando, assim como a aranha vai tecendo meticulosamente a sua teia.
Só faltava, visualizei, um pequeno estalo, conectar o último ponto. O que falta? O que ainda resta ser pensado para definir o melhor livro dentre todos que já li? A resposta eu já sabia, só faltava-me encontrá-la.
E ela veio, leitor, ah se veio! E amparada justamente pelo cinema. Por um acaso (ou não, isso é discussão para outro dia) vim a procurar o filme do livro O Grande Mentecapto, de Fernando Sabino, que sempre tive vontade de ver. Ao encontrá-lo, lembrei-me de ter afirmado, no passado, ser o meu livro favorito.
E ainda é.
Neste momento, o entendimento veio em borbotões: claro! É o melhor livro que já li! Mas, além de sua história (perfeita, uma grandiosa epopeia), quais são seus atrativos?

Reconhecimento é a resposta, damas e cavalheiros.
Apesar de me empolgar com Dom Quixote, sofrer com Gregor Samsa e exultar com a queda de Sauron, nenhum desses personagens ou acontecimentos reflete de modo direto a minha realidade, fruto que sou das montanhas de Minas Gerais, criança que brincou na roça, comeu pão de queijo, que fala "trem" e "uai"; que irá, com toda a certeza, tornar-se um rapaz frequentador dos tradicionais bares, um ressabiado quase-boêmio, que escuta o Clube da Esquina no mp3 player. E é isso, em maior grau, que a obra de Fernando Sabino trás: uma odisseia dentro de Minas Gerais, seus personagens e hábitos, com tudo o que tem direito. História plena de significado, conteúdo, que vai do drama ao épico, da guerra à mesa, e com um dos personagens mais marcantes de todos os tempos, o irmão mineiro e antecessor de Forrest Gump: Geraldo Viramundo.
A nostalgia bateu forte ao ver o filme, e me lembrar de tudo o que passei ao ler o livro diversas vezes. Sim, digo em alto e bom som: o melhor livro que já li. E digo que, se algum outro o superar, é porque é fora de série, assim como esse.

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